Nada é por acaso. Acredito que tudo acontece por uma razão. Então, talvez não termos acontecido também teve uma razão… Uma razão que eu talvez descubra amanhã ou em dez anos. Nada é por acaso, nem mesmo o “nada” que eu recebi de ti.

O nome errado.

Mulheres são patéticas, não?

Porque nós colocamos salto alto e ficamos torcendo para chegar em casa e poder tirá-los. Nós vestimos o melhor sutiã esperando que alguém o tire, passamos o melhor batom esperando que alguém o faça borrar, arrumamos o cabelo torcendo para que, no final da noite, uma mão o desarrume. Nós sorrimos olhando para baixo, com as bochechas ardendo, por qualquer coisa melosa que a outra pessoa fale. Nós olhamos em seus olhos e ficamos perdidas lá dentro, apenas concordando com a cabeça, fingindo ouvir, mas, na verdade, sem nem ouvir o que a pessoa está dizendo. Nós rimos alto demais por piadas sem graça. 

Queremos que alguém que a gente queira nos queira. Queremos cenas de filme, beijos românticos, passeios no pôr-do-sol, palavras sussurradas no ouvido. A ilusão é boa enquanto dura. Por que é tão difícil ser amada do mesmo jeito que amamos? Talvez porque isso não é amor. Isso é desejo, é oportunidade, é utilidade. E, no fim, quando tudo acaba, o resto é inútil. Viramos uma carcaça, uma embalagem vazia precisando de refil.

Parece que apenas colocamos nosso coração exposto para que alguém o jogasse no chão, o pisasse e o quebrasse. Passamos dezenas de camadas de rímel para que ele se escorra pelas nossas bochechas? 


Nostalgia do passado e do futuro.

Eu não deveria ser deixada sozinha comigo mesma por muito tempo. Eu começo a pensar. Pensar demais. Pensar em tudo. E pensar pode ser bem deprimente.

Passei os últimos cinco dias convivendo só com a minha própria consciência. Ela me convenceu que eu sou deprimente. Há uma diferença entre ser depressiva e deprimente. Eu não sou uma daquelas pessoas que alegram o cômodo quando entram pela porta. Quando foi a última vez que eu contei uma piada e alguém riu? Nem mesmo lembro! Parece que minha presença não é algo necessário, ou seja, tanto faz se eu estiver ali ou não.

Eu, sozinha, penso em tudo. Penso em como eu estou feliz, como eu estou tendo o melhor ano da minha vida, em como eu estou crescendo e melhorando e em como eu estou realmente vivendo. Mas eu também penso em como isso tudo é temporário, como as coisas vão voltar pra sua rotina entediante de sempre em menos de cinco meses. Eu penso em como eu era solitária, em como eu vou ser solitária, em como eu sou completamente solitária. Independente!? Não, solitária mesmo. Eu me convenço que não preciso de ninguém quando no fundo eu sei que preciso.

Eu preciso parar de ouvir minha consciência, por favor. Músicas, livros, filmes, séries, deixem-me mergulhar em seus mundos para que eu possa viver outra vida, sonhar outros sonhos, ter pensamentos que não sejam os meus.


The movie no one would watch.

Eu te disse que gostava de escrever… Talvez você nem se lembre. Talvez você nem se dê conta que isso poderia significar que um dia você fosse a personagem de minhas palavras. Mesmo que você nem se dê conta, bem vindo à sua ficção. Que, de ficção, não tem muito.

Posso não estar falando muito. Por isso todos acham que eu talvez esqueci… Não esqueci. Repito cada momento a cada momento. Um filme em loop dentro da minha cabeça. Meus olhos foram a câmera, mas eles estão me confundindo. Mudando seu sorriso por outro, sua voz por uma qualquer. A chance de vê-los ao vivo de novo? Inexistente… 

Mas quem sou eu para entender de filmes… Deixo isso com você. Você sabe melhor. Quem sabe um dia eu escreva um roteiro, você dirija e no final nós nos demos conta de que os atores deveriam ser nós mesmos.


Cálculos mentais.

O número discado na tela. Meus dedos, delicadamente, digitaram um por um. O número discado na tela… Me encara e me assusta. Eu sei que não vou ligar. Minhas digitais carimbadas na tela não são tão corajosas assim a ponto de apertar o botão verde. É tudo o que precisa ser feito, mas não é. Tortura. Ficar olhando para o número. Ficar contando. Ficar achando similaridades. O último e primeiro número são iguais… Mas talvez nem você tenha reparado. Tento me distrair com números, mas como me distrair quando essa sequência tão fácil de decorar é o que pode me levar até você? Até sua voz. Não sei mais se sua voz é realmente sua voz ou apenas produto da minha imaginação, como um disco que tocou vezes demais na minha mente e perdeu a qualidade. As imagens já estão distorcidas, não sei mais se imaginei ou foi real. Só me resta apertar um botão. Só me resta esperar o toque. Mas eu sei que desligaria assim que você dissesse “alô”. Covardia é um defeito feio, mas acho que seria mais feio ainda se eu tivesse a coragem de ligar e fazer papel de idiota de novo. 

O número continua a me encarar. Sabia que o anti-penúltimo número multiplicado pelo penúltimo resulta no último? Talvez eu deva parar de pensar em matemática. Números. Um mais um nunca é dois em relação a eu e você. Nunca nós. Nunca foi. Não é. Nunca será.

A digital carimbada no botão vermelho é a mais recente na tela agora.


Já cansei dessa tal de independência. Fui obrigada a tê-la cedo demais, sem ao menos notar. Agora é difícil até admitir que não preciso dela. Orgulho vem junto quando você a compra. Mas, agora, quero ser dependente. Quero depender. Não quero mais me virar sozinha. Cansa ter que pensar tudo. Cansa ter que sentir tudo. Ao inferno essa minha independência.


Abaixo de zero.

Talvez seja só a temperatura lá fora. Talvez eu não tenha me preparado o suficiente. Talvez seja só o vento frio que bate na janela. Nunca estive tão fria. Gelada. Por dentro. Por fora.

A vida não te prepara para isso. A vida te prepara para chocolates quentes. na beira da lareira, ouvindo alguma música bonita, encostada nas costas quentes de alguém, deitada no meio do tapete da sala. A vida não te avisa das longas caminhadas sozinha pelo vento cortante que teu casaco não consegue barrar. Você pensa que seus lábios não vão rachar, mas no dia seguinte tem que ir correndo comprar um protetor labial. A gente sempre espera o melhor, mas pensar positivo nem sempre é a melhor saída. Raramente é.

Acho que é essa época do ano. As ruas enfeitadas, cheias de luzes. As músicas natalinas soando. Não é tão romântico quando se está gelada por dentro.

A gente fecha os olhos para chorar. Não adianta estar no escuro ou em um apartamento de luxo. As lágrimas vão ser tão molhadas, tão salgadas quanto. As lágrimas embaçam nossa visão, o nariz congestiona, a fala se vai. A dor dói igual. Aqui ou lá.

A solidão é a mesma. Aqui ou lá. Fazendo 40 ou 0 graus.

A previsão de tempo disse que vai chover.


Bleh.

Passei o dia inteiro com esse buraco no peito. Um incômodo. Algo reclamando. Se eu ao menos falasse a mesma língua que meu coração… Mas já que não falo, uso a que sei para tentar traduzir. Sinto falta de história. Sinto falta de emoção. Aquele friozinho na barriga? A antecipação? O seu rosto ficando cada vez mais quente? Nem ao menos me lembro de como é a sensação. 

Tem algo faltando. Eu só queria saber o que é. Talvez sejam minhas expectativas que sempre estiveram lá no alto. Não sei se me satisfaria com qualquer coisa. Eu nunca me satisfaço com qualquer coisa. 

Tem que ser algo que me faça sentir que eu estou vivendo. Sentir que não estou apenas parada numa estação esperando um trem que não existe. Tem que ser algo que grite, que me assuste. Tem que ser algo real. Minha mente já se cansou da minha tal imaginação. O coração dentro do meu peito chora por alguma realidade.

Estou cansada de esperar. O tempo é bem entediante.


Estou pensando em me devolver. Em ligar para o fabricante e dizer que quero reembolso. Quero o dinheiro de volta porque tem algo errado comigo. Pessoas normais não são assim. Eu só posso ter um defeito e dos grandes. Não sinto o que deveria, sinto tudo o que não é bom para mim. As lágrimas caem na hora errada por motivos diversos. As outras pessoas não fazem isso. Já faz um mês. Nem um pingo de saudade. Nem uma gota. Nada. Quero reembolso, mas acho que já arranquei minha etiqueta.


Muito.

É sempre nessas horas da noite que ocorre algo dentro de mim. Algo que não me abandona até que eu escreva algo. Essas últimas semanas tenho tido muitas inspirações, mas estou sem tempo para as ações. Mas, agora, 02:32 aqui em Londres, essa vontade repentina e desesperada nem sequer bate à minha porta, mas simplesmente entra, como se tivesse a chave e fosse de casa. Incomoda-me, procurando por um papel, uma caneta, mas acaba indo até o teclado. Move meus dedos e escreve coisas que eu mesma não sabia minutos atrás.

São muitas pessoas, muitas coisas, muitas paisagens, muita história. O mundo seria tempo demais e o tempo seria escasso se todos resolvessem contar as histórias que sabem. São muitas cores, cheiros e gostos para poucos nomes.


Foi tudo ilusão. Tudo coisa da minha cabeça. Tudo imaginário. Criei cenários, criei falas, criei situações, criei brigas, criei romance. Fiz de você um fantoche sem perceber que era minha própria mão que te dava vida. Fiz de nós uma ficção que eu jurava ser verdade. Fiz da ilusão uma escapatória à realidade. Só que a gente sempre acorda de manhã e sempre vê que não passou de um sonho. Eu acabei de acordar.


Não quero explicações.

Há coisas que eu não entendo. A física explica, mas não consigo entender como aviões não caem lá de cima. A tecnologia me assusta à vezes, não entendo como um monte de códigos consegue se transformar em um programa de computador. A biologia também diz que o que nos mantém vivos é a troca de oxigênio e gás carbônico, o sangue correndo em nossas veias, tudo funcionando direito e sem se interromper… Para mim isso é praticamente um milagre. Como carros conseguem andar queimando combustível? Como é que conseguimos capturar o que vemos com um simples clique numa câmera? Como é que seres humanos se desenvolvem dentro de outros seres humanos?
Você pode me dar mil explicações, eu posso ler quantos livros e pesquisas e teorias que puder, mas eu sempre vou me admirar com a beleza das coisas. Coisas que eu até prefiro não compreender, não saber, deixar com que elas me surpreendam quando quiserem, posso me pegar pensando nelas e na beleza delas e não precisa se entender para contemplar.
Não precisa compreender pra amar, basta um olhar, basta respeito, basta um toque.



Tipo.

Eu sou a garota que espera com um sorriso a pessoa perceber e me dar espaço ao invés de pedir licença. Sou a garota que se sente mal quando é obrigada a cortar fila e sou aquela que se incomoda quando algum amigo se utiliza da minha presença para cortá-la. Sou a garota que muitas vezes fala “obrigada” quando deveria “dizer de nada”. Sou aquela que se incomoda quando alguém joga lixo no chão perto de mim, ou fuma perto de mim. Sou aquela que nunca falou nenhuma palavra na sala de aula e até foi citada por esse fato no discurso de formatura. Sou aquela que não pega o último pedaço de pudim se tem alguém atrás de mim para pegar a sobremesa. Sou aquela que não tem coragem de começar uma conversa pois sempre acha que está incomodando. Sou aquela que, numa rodinha, fica calada, só ouvindo, esperando alguma brecha para fazer um comentário. Sou aquela que se sente mal quando finalmente acha essa brecha e alguém fala por cima e todos decidem ignorá-la. Penso várias vezes antes de abrir a boca e geralmente acabo me arrependendo do que falei. Sou esse tipo de garota.

Algumas vezes posso ser espontânea, posso ser extrovertida, mas só quando me sinto confortável com a outra pessoa. Eu já tentei ser diferente. Não deu certo. Porque eu sou aquela pessoa que não gosta nem de lembrar de como ela era quando decidiu não ser ela mesma, por pura vergonha do que fez ou falou. Parece que ser simpática e tímida ao extremo são coisas opostas, porque uma exclui a outra. Mas eu sou assim.

Já me julgaram demais por ser uma coisa na internet e outra na vida real. Não é bem assim. Eu sou a mesma pessoa, mas aqui eu tenho o poder de expor meus pensamentos e sentimentos sem que ninguém me corte. Sem ter um silêncio desconfortável. Sem gaguejar. Sem que eu tenha medo de alguém achar estúpido.

Eu queria não ser assim, mas é difícil fazer minha boca falar o que eu penso. O contato físico me assusta. Acho que minha língua é minha pior inimiga.


1:33

O travesseiro mudou de temperatura. Minha visão já está turva, minha respiração é inconstante, acha obstáculos a serem superados. Não faço ideia do que aconteceu comigo.
Todos meus planos? Todos meus desejos? Toda minha motivação? Bateram num muro duro e áspero de concreto e estão presos entre as ferragens. Ferragens podres, oxidadas, que sujam o corpo, sujam o sangue, contaminam-me.
A boca seca, os lábios rachados, o peito preso em uma caixa apertada. A identidade se perdeu, apesar de ainda estar na minha carteira com meu nome e minha digital. Os dedos não mudam? A cabeça sim. A cabeça muda sem deixar um bilhete informando o novo endereço. O travesseiro está molhado demais. Só me resta virá-lo e tentar fechar os olhos.